PCR, IgA, IgM, IgG, teste rápido, sorologia, “do furo no dedo”, “do sangue do braço”… todos os dias respondo perguntas sobre os atuais testes para avaliação de pacientes com suspeita de COVID-19. Neste momento em que os números de casos no país crescem impressionantemente todos os dias e muitos brasileiros estão sendo submetidos aos exames para COVID, chegou a hora de entendermos um pouco melhor do que tratam estes exames e como interpretá-los.

Primeiro é importantes saber que existem exames que procuram o vírus (detecção viral) propriamente dito e outros que avaliam a resposta imunológica do organismo (sorologias). Isto os torna muito diferentes quanto ao momento que devem ser pedidos, o tipo de resposta que dão e, tão importante quanto, as respostas que não dão.

Outra coisa importante é o conceito de SENSIBILIDADE e ESPECIFICIDADE.

Sensibilidade é o quanto de indivíduos positivos em um grupo onde todos os pacientes são positivos para uma condição (doença ou estado de saúde) X um teste é capaz de detectar. Exemplo: entre 10 indivíduos com a doença, um teste Y é capaz de detectar 7. Ou seja, ele tem uma sensibilidade de 70% para a doença X. O problema é que, então, 30% dos pacientes positivos teve um resultado “falso-negativo” – o exame veio dizendo que o paciente não tem a doença, quando, na verdade, o sujeito tem. É por isso que, às vezes, vemos pessoas com todos os sintomas de uma doença específica, como a COVID, mas o resultado do exame vem negativo. E é por isso que é sempre importantíssimo lembrar que na Medicina, exames são complementares! A clínica – os sintomas do paciente – é sempre soberana!

Especificidade tem a ver com a certeza de que o teste Y está mesmo avaliando a condição X. Mas como funciona isso? Bem, se você tem sintomas de gravidez, por exemplo, e faz um exame de sangue para confirmar, você espera que este exame seja específico para gravidez; você não faz um teste de gravidez esperando que este teste, na verdade, lhe dê resultados sobre o seu fígado, por exemplo. Ou se você está com sintomas de sífilis e faz um teste confirmatório, você espera que este fale sobre se você tem ou não sífilis, e não dengue. Portanto, o que você deseja é que o teste seja o mais específico possível, ou seja: que nenhum paciente com doença diferente da sua doença X tenha um resultado positivo para ela (nenhum “falso-positivo”).

Estes conceitos servem para TODOS os testes diagnósticos que você um dia venha a fazer: de sangue, de imagem, análises de biópsias, todos.


Nenhum exame tem 100% de sensibilidade e 100% de especificidade! Procuramos desenvolver e utilizar aqueles que têm o maior número nas duas categorias, mas TODOS OS EXAMES TÊM FALHAS.


Uma última informação importantíssima diz respeito à IMUNIDADE. Reação Imunológica e Imunidade são coisas diferentes, apesar de terem nomes parecidos. E por que razão precisamos saber disso?

Porque, na ausência de imunodeficiência grave (quando o nosso sistema de defesa não consegue funcionar corretamente), todos nós respondemos à invasão do nosso organismo por um agressor qualquer. Exemplo: quando uma bactéria que causa infecção de pele entra por um machucado qualquer que tenhamos, o que acontece? O local fica inchado, vermelho, dolorido, possivelmente com pus, certo? Isso é o que nós vemos a olho nu. Invisível aos nossos olhos é a produção de imunoglobulinas – substâncias presentes no nosso sangue que ajudam a neutralizar os microrganismos, facilitando o trabalho das nossas células de defesa na destruição destes agressores.

Então há o surgimento de defesa, mas nem sempre ela é totalmente vitoriosa! Exemplo: se fizermos um exame de sangue para detecção da resposta imunológica em quem é portador do vírus HIV, teremos um exame positivo! Mas bem sabemos que esta resposta não é suficiente para curar o paciente. O mesmo acontece com a catapora (varicela, como chamamos): conseguimos, através do exame, saber que o paciente já teve contato com o vírus (já adoeceu algum dia), mas sabemos que o vírus não deixou o organismo do paciente. Ele está lá, quietinho, adormecido, podendo voltar um dia fazendo, entre outras coisas, o que muitas pessoas conhecem como “cobreiro” ou herpes zoster.

Para outras doenças, como o sarampo, a nossa imunidade é desenvolvida com sucesso! Uma vez que você tem a doença, não a desenvolve mais para o resto da vida – mesmo que exposto novamente a alguém doente.


Nem toda reação de defesa do nosso organismo significa imunidade totalmente protetora! Algumas vezes, podemos desenvolver uma grande defesa, capaz de nos proteger totalmente e para o resto da vida! Outras vezes, apesar da boa resposta imunológica, esta não é capaz de nos proteger de um novo quadro de doença se formos novamente expostos ao microorganismo.

Daí a importância das vacinas (leia mais aqui)!


Bom, agora que você já sabe os conceitos gerais sobre testes diagnósticos, vamos falar dos exames da COVID? Está no próximo post!